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segunda-feira, 30 de março de 2015

"Páscoa na Escola" - a escola laica e o currículo escolar

Entrevista com Denise Mak, Mestra em Educação: História, Política, Sociedade, Pedagoga (Mackenzie) e Professora da Educação Infantil (PMSP)


Pergunta 1 – Denise, por que você acha que o calendário escolar ainda privilegia datas comemorativas para o desenvolvimento do currículo e não o inverso? E também, por que datas religiosas do cristianismo acabam fazendo parte do cotidiano escolar com tanta naturalidade sendo a escola pública uma instituição laica?
As datas estão presentes no universo escolar por uma razão que nós conhecemos: é uma questão histórica.
A construção de uma religião comum a todos e a ideia de nação fizeram com que as datas comemorativas adentrassem as escolas e se tornassem inquestionáveis.
É preciso ver com outros olhos o que está naturalizado dentro do ambiente escolar. Muitos educadores não conseguem fazer esse exercício e enxergam as datas comemorativas como algo que faz parte do currículo, o que é uma atitude equivocada. Já ouvi muitos educadores, colegas de trabalho, falarem: mas se nós não comemorarmos a Páscoa, dia das mães, entre outras datas, o que faremos com as crianças? Essas pessoas acham que a escola de educação infantil perderá seu real intuito sem as datas. Penso justamente o contrário: temos muito a ganhar sem as datas, principalmente sem as religiosas que privilegiam somente o cristianismo, dentro do âmbito escolar. Datas religiosas estão presentes porque nosso país possui uma maioria cristã, mas tudo se trata de uma imposição e manipulação de memórias, de sempre inferiorizar a minoria, isso pode ser constatado na história da educação brasileira. 


Pergunta 2 – Presenciamos no ambiente escolar que os/as professores/as organizam muitas atividades em torno de duas datas religiosas, a Páscoa e o Natal, as mesmas que você abordou em seu artigo “A Páscoa e o Natal: a comemoração dentro da escola”, publicado em 2013 na Revista Acadêmica Veras. Chama a atenção que ao serem questionados/as sobre a comemoração na escola afirmam que não enfocam a religião. Há como fazer isso, considerando que datas significativas de outras religiões não aparecem em outros momentos? Existe uma maneira de comemorar a Páscoa, fazendo atividades de partilha de chocolates, confecção de máscaras de coelho e conversas sobre os símbolos da data, sem explorar o aspecto religioso? Aliás, existe essa necessidade?
Para mim, essas datas devem ser abolidas do calendário escolar, a Páscoa e o Natal, conforme você exemplificou, não devem fazer parte, de modo algum, do currículo de qualquer escola pública laica. Quem deve trabalhar religião, ou não, é a família. Devemos respeitar a religião dos nossos alunos e não impor de maneira incondicional o credo que possuímos.
Se a escola pública comemora datas religiosas cristãs deve comemorar de todas as outras religiões, acredito que isso seja impraticável.
Sobre como trabalhar de outra maneira a Páscoa, seria importante fazer um projeto sobre o coelho, pois muitas crianças acreditam que este animal bota ovos, creio que seria uma maneira científica de trabalhar esta questão, mas isso pode ser incluso em um projeto sobre mamíferos, por exemplo, não necessariamente na época da Páscoa.

Pergunta 3 – Você vê a possibilidade da escola fazer um trabalho que envolva religião sem discriminar ou enaltecer somente alguns grupos?
Eu não vejo como, pois os entes da escola pública possuem uma diversidade religiosa muito grande entre si. Nunca trabalhei fora da educação infantil e desconheço projetos que focalizem esta temática de maneira não discriminatória, se tiver algum projeto sobre isso, eu gostaria de conhecer.  

Pergunta 4 – A partir de sua experiência de pesquisa para o mestrado, seu olhar em relação ao tema “religião na escola” provavelmente ficou mais apurado. Percebeu alguma mudança de posturas ou falas dos/as professores/as em sua presença?
Não houve nenhuma mudança de postura e isso me possibilitou uma boa coleta de dados. Elas sabiam o que eu pesquisava e mesmo assim agiram da maneira que costumam agir em sala. A pesquisa demonstrou o quanto a religião pessoal pode ser levada para dentro da sala de aula e creio que passei a respeitar mais este assunto e a ser mais tolerante com pessoas que tentam impor seus credos dentro de sala de aula, acho que já fui mais radical, mas com o tempo percebi que essa é uma luta difícil e que deve ser construída aos poucos, porém com frequência.



Pergunta 5 – Você concorda com a frequente justificativa de abordar a Páscoa na escola com a necessidade de trabalhar os valores no ambiente escolar?

Discordo. As pessoas tendem a vincular bondade com religião e isso é um ledo engano. A construção de valores não pode ser trabalhada nas datas comemorativas, ela é uma construção cotidiana e coletiva. Devemos respeitar os nossos alunos e demonstrar isso no dia a dia da sala de aula e não com embasamento em alguma data comemorativa, principalmente as vinculadas a uma religião. A ética deve ser algo primordial dentro da escola, consequentemente dentro da sala de aula.   

16 comentários:

  1. Achei a entrevista muito pertinente, com um tema que precisa sempre estar presente nas formações de professores. É pela relevância de ideias como esta, que acredito que professores com esta linha de pensamento devem permanecer e aumentar em número dentro da rede pública de Educação.

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  2. Primorosa a concepção desta educadora! Gostaria que cada escola dispusesse de, ao menos, um educador(a) com essa visão. Poderiam se tornar agentes multiplicadores dentro da instituição e da comunidade e contribuir muito à melhoria da educação deste país! Meus parabéns!!

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  3. ONDE QUE EU CLICO 10 MIL VEZES? SAIBAS ARGUMENTAÇÕES E MARAVILHOSAS RESPOSTA APOS AS PERGUNTAS!!ESTE TEMA ESTA DE PARABÉNS!!

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  4. Concordo, mas me questiono se a escola não deve ir na contramão desta febre de coelho e consumismo, aproveitando o momento para justamente questionar esta cultura? Ignorar estas duas datas é fechar os olhos e ignorar o que acontece na sociedade. Creio que trabalhar a origem, as lendas, e principalmente, combater o consumismo, é papel da escola.

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    1. Penso que a história não pode ser ignorada, assim como temos grandes filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles, a história nos remete ao passado que nos formulou até os dias atuais. Levando em conta que as leis que nos regem são formuladas (muitas) das escrituras antigas (a bíblia que também é história).
      Vejo assim Jesus (homem) como um grande filosofo que nos instiga ao caráter, o respeito a dignidade, assim também qualquer homem que esteja disposto a somar para melhoria do cidadão.

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    2. Sendo assim a pascoa como retrata a ressurreição, pode nos remeter a ressurreição de valores a moral e o caráter que está bastante escaço da sociedade.

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    4. Se nao podemos ignorar a historia, por que ignoramos as celebracoes pagas, que vieram muito antes das celebracoes cristas? So a historia da biblia nao vale, se for assim, temos que envolver TODAS as historias.

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    5. Penso que se preocupassemos em termos o cuidado nas escolas públicas em ensinar valores éticas e um ensino de qualidade nao e.nao ficar ocupado em tirar O cristianismo da escola, nosso país seria um país mais humano, falam da Páscoa e do Natal dizem q é algo manipulador ,mas.e o q me dizem das.festa Junina , halowem. Penso q se estamos fazendo o bem ,demostrando as nossas crianças que doar, fazer o bem, e se sacrificar pelo nosso próximo vale a pena. Isso é ser professor, não apenas letrar mas ensinar sentimentos.

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  5. Jesus como filósofo? Mas pq poucas são as que trabalham outros filósofos? Pq Jesus? Conceitos implícitos na obra de Cristo deveriam permear todo o currículo,como amor,gratidão,humildade,acolhimento,paz... É um difícil caminho a ser trilhado,mas a minha escola aboliu todas essas festividades e vivemos felizes! Os pais estranharam...Nos estranhamos...Mas faz parte! Hoje gostamos do resultado pq não estamos amarrado com datas festivas e sim com nossos projetos que são muitos!

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  6. Num tou meconformando com tanta barbaridade que li. Se depender do texto, muita gente so vai conhecer Cristo quando tiver entro das cadeias. O mundo precisa MELHORAR!!! Aff me poupe viu...cada uma que aparece...vai p Rio de Janeiro dar um jeito no trafico. Isso voce nao quer, ne...

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Sempre acreditei que a escola é um ambiente formador e que a religião deve ficar a cargo da família. O professor deveria ser neutro neste ambiente, indepentende de sua formação religiosa ou não, pois temos uma diversidade imensa dentro da escola. Já temos muito o que trabalhar com essas crianças e adolescentes, valores, ética, etc.... muito boa reflexão Denise!

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  8. Excelente texto. Tambem luto por uma escola que valorize a infancia, como um tempo de conhecer, investigar, aprender. São tantas coisas que ficam pra traz quando se é submisso ao trabalho baseado em datas comerciais. Uma pena, mas a luta ainda é longa.

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  9. Excelentes as colocações da pesquisadora! Impressionante como muitos professores/professoras ignoram o princípio da laicidade, tão bem expresso na LDB 9394/96 e tratem com naturalidade, na escola, datas comemorativas próprias do cristianismo como Páscoa e Natal. Isto demonstra o quanto há que se investir em formação docente!!

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  10. Sandra Ferreira Pinho1 de abril de 2018 00:26

    De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, os dois eixos de aprendizagens são as interações e brincadeiras, diante disso o repertório de possibilidades para planejamento de práticas pedagógicas é tão amplo, que não há necessidade de se trabalhar datas comemorativas que estão muitas vezes ligadas ao assistencialismo e a valores que não respeitam a diversidade cultural.

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